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6 lições que o Second Life pode ensinar ao metaverso do Facebook

Recentemente, Mark Zuckerberg anunciou a criação da Meta e seu metaverso, uma espécie de mundo virtual onde nossos avatares em 3D poderão interagir como ocorre no mundo real. A ideia fez a muitos relembrar do Second Life, ambiente virtual e social que, na primeira década de 2000, foi pioneiro neste modelo de negócio.

Em entrevista à revista americana Time, o criador do Second Life, Philip Rosedale, e Tom Boellstorff, um antropólogo que passou dois anos no mundo virtual e escreveu o livro Coming of Age in Second Life: An Anthropologist Explores the Virtually Human, explicaram quais são as seis lições que o Facebook pode extrair do Second Life.

 

1. As pessoas vão frequentar o mundo virtual, mesmo sem um propósito explícito.

Enquanto o Vale do Silício está em constante busca pelo “killer app”, isto é, o próximo “aplicativo matador” que pode mudar o mundo como fizeram Google e Facebook, Second Life é um ambiente virtual com características muito peculiares. Nele não há objetivos ou utilidade definidos, uma pontuação como nos videogames, nem ganhadores ou perdedores.

Essa ausência de “sentido” aparente pode parecer estranha para muitos, mas Boellstorff e Rosedale concordam em dizer que isso é de fato a razão essencial que leva muita gente a “viver” no Second Life.

“Muita gente dá uma olhada nessas coisas porque ouviram falar, mas em seguida descobrem algo que gostam de fazer ou uma comunidade com a qual gostam de interagir da qual nunca tinham ouvido falar”, explica o antropólogo.

Segundo Rosedale, o potencial ilimitado de criação é um dos motivos principais para o sucesso dos metaversos. De fato, no Second Life, os usuários podem construir seu próprio mundo do jeito que quiserem.

 

2. As pessoas vão gastar dinheiro em bens digitais, mas poucos criadores vão viver disso.

Um dos lugares comuns sobre os metaversos é de que as pessoas não compram coisas que só existem no mundo virtual. Mas segundo o criador de Second Life isso é uma falácia, já que nos primeiros dez anos, os usuários gastaram 3,2 bilhões de dólares, em dinheiro real, em transações na plataforma.

De acordo com o antropólogo, o próximo metaverso é destinado a se tornar uma plataforma como YouTube, onde uma pequena porcentagem de usuários ganha renda produzindo vídeos, enquanto a maioria é apenas consumidoras de conteúdo e uma outra parte faz vídeos de maneira informal sem nenhum fim econômico.

 

3. Dificuldade de uso e desafios tecnológicos são empecilhos para adoção em massa.

A revista americana Atlantic estimou, em 2017, que entre 20% e 30% dos usuários de Second Life nunca mais acessaram a plataforma, após o primeiro uso. A maior dificuldade é entender como funciona o mundo virtual.

Avatares que parecem desenhos animados também não ajudam, assim como a exigência de computadores potentes para rodar o programa e a necessidade de usar equipamentos de realidade aumentada. Second Life teve também dificuldades para desenvolver um bom aplicativo para celulares.

São todos desafios para o Facebook que anunciou que está investindo em tecnologia para criar avatares cada vez mais realísticos.

Uso de VR para entrar no metaverso

 

4. Os mundos virtuais podem ter dificuldades para atingir certos públicos.

Segundo o fundador do Second Life, o interesse pelos metaversos cresceu durante a pandemia, enquanto estivemos presos em nossas casas. Mas, em tempos normais, é difícil convencer alguém a ficar no mundo virtual.

A escapatória digital pode ser um recurso interessante para pessoas que vivem em áreas rurais com nenhum ou pouco contato social, ou em países autoritários onde a necessidade e liberdade de comunicação podem transformar o avatar na identidade primária do usuário.

 

5. Estabelecer regras é complicado.

O fundador do Second Life considera difícil estabelecer regras de moderação no metaverso, e um sistema de controle de identidade que permita uma gestão do que ocorre na plataforma.

Segundo Boelstorff, criar um modelo pago como Second Life – onde os usuários pagam para comprar terra – ajuda a afastar as tendências negativas de companhias como Facebook, que recentemente mostrou que prioriza o lucro sobre a desinformação. E contribui para manter longe um público mal-intencionado.

 

6. O metaverso não deve ser onipresente 

O modelo capitalista do Vale do Silício é tão sufocante que os fundos de investimentos estão na constante busca pelo próximo Facebook ou pela nova Apple, ou seja, empresas capazes de transformar o mundo por meio de programas e produtos de massa.

Mas o metaverso, que foi apresentado como se fosse uma espécie de Matrix pode, na verdade, ter um alcance não tão abrangente como essas outras plataformas, mas mesmo assim ser útil para determinados públicos, como as pessoas deficientes que não podem sair de casa.

Ou ainda para outras finalidades, como por exemplo estimular o teletrabalho e, desta forma reduzir o uso do carro, e diminuir as emissões de gases de efeito estufa, em tempos em que se fala de transição ecológica. 

Apesar dos grandes problemas e incógnitas que ainda pairam sobre o Metaverso que Zuckerberg está desenhando, o fundador do Second Life garante que ainda há um enorme apetite para a exploração do espaço virtual, especialmente à medida que a tecnologia continua avançando e se aprimorando.